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“Perdemos um ótimo profissional para ganharmos um mau líder.”
De acordo com alguns estudos, a transição para o primeiro cargo de liderança continua a ser um ponto cego das organizações. Aproximadamente 60% dos novos managers falham ou têm desempenhos abaixo do esperado nos primeiros 24 meses[1]. Cerca de 60% dos diretores de RH colocam a “eficácia de líderes e managers” como prioridade número um da agenda de RH[2]. Estudos com first-time managers mostram ainda que 20% são avaliados como insatisfatórios pelos seus subordinados, 26% sentiram que não estavam preparados para liderar quando assumiram o cargo e quase 60% nunca receberam qualquer formação específica[3].
De acordo com o Center for Creative Leadership sobre os first-time managers: 1 em cada 4 organizações reporta perda de lucro, quase 60% reportam turnover de líderes ou membros da equipa e 65% referem perda de produtividade associada à liderança de frontline.[4]
Liderança: quem sou nós?
A passagem para um cargo de liderança é mais do que uma promoção ou novas responsabilidades. Como descreve Linda Hill em Becoming a Manager, é sobretudo uma mudança de identidade: deixamos de ser (e de ser vistos como) alguém que “faz”, para passarmos a ser alguém que “faz através dos outros”, medindo o nosso sucesso pelos resultados da equipa (Hill, 2003).
Aqui reside o paradoxo central da transição: as competências e conhecimentos que nos tornaram excelentes profissionais e justificaram a promoção não são as que definem o sucesso num cargo de liderança. O que antes era valorizado — excelência técnica, rapidez, controlo — deixa de estar no centro do papel[5]. Esta mudança é, na maior parte dos casos, mais complexa e difícil, essencialmente por parecer contraintuitiva. Deixamos de ter tanto controlo pelos resultados que alcançamos (individualmente) e passamos a ser medidos pela qualidade das decisões que tomamos, pelas condições que criamos e pela eficácia com que multiplicamos a contribuição da nossa equipa, dos outros. Esta ambiguidade e sensação de perda de controlo pode, de acordo com Yukl[6], originar comportamentos de microgestão impactando negativamente a performance da equipa.
Adicionalmente a passagem para um cargo de liderança também exige lidar e gerir com uma constelação de expectativas diferentes e por vezes conflituantes: a) diretas: superior hierárquico, as do próprio e da equipa, b) indiretas: clientes, fornecedores e a própria organização.
Boa parte das expectativas que criamos é construída por modelagem. Passamos anos a observar os nossos gestores e a ser geridos por eles, formando ideias (mais ou menos explícitas) sobre “como deve ser um líder”. Mas, enquanto profissionais (contribuidores individuais), vemos apenas a parte visível do “iceberg”: reuniões, decisões pontuais, alguns comportamentos. A parte submersa (dúvidas, dilemas éticos, conflito de prioridades, impacto emocional) raramente é visível. Entramos no novo papel com um guião incompleto.
De acordo com Ty Wiggins[7], uma transição exige mudança profunda, não apenas adaptação operacional. Os desafios agrupam-se em diferentes campos:
O estudo Looking Ahead to 2030[8], que desenvolvemos na Header, vem reforçar esta ideia, pois quando perguntámos às organizações em Portugal o que esperam dos líderes de 2030, as respostas incidiram em: visão estratégica, ética e integridade, escuta ativa e empatia, resiliência. Ou seja, o mercado confirma que a liderança do futuro exige um maior conjunto de competências soft e power skills e menos técnicas.
Importa sublinhar que, ao assumir um cargo de liderança, o novo líder tem também uma responsabilidade ativa: trabalhar a sua própria transição, procurar clareza, pedir feedback, investir em aprendizagem e desenvolvimento. Ficar à espera que a organização “trate de tudo” é, em si mesmo, um risco.
Voltando à frase com que iniciei o artigo – “Perdemos um ótimo profissional para ganharmos um mau líder” – é uma observação relativamente comum em conversas no seio empresarial e inclusive nas nossas relações sociais e familiares. Apesar de nalgumas situações poder ser uma observação baseada em resultados e factos (ainda que muito discutível), confesso que observo, que na maior parte das situações, é redutora na explicação dos “factos” observáveis. Ou seja, é uma observação que imputa uma quase total responsabilidade ao líder, desvalorizando muitos outros fatores.
Causas:
Esta realidade é complexa e sistémica. Há causas do lado dos profissionais, causas do lado das organizações e causas contextuais que se reforçam mutuamente, criando um ciclo de transições desadequadas.
Do lado dos Profissionais:
Do lado das empresas:
Da responsabilidade à responsabilização: o que podemos fazer melhor?
A responsabilidade é bidirecional e partilhada: do lado do profissional e do lado da organização. Mas é inegável que as empresas têm mais margem, e, em muitos casos, a obrigação de dar o primeiro passo.
Algumas boas práticas que observamos e recomendamos:
Pese embora, seja uma situação há muito diagnosticada, continua a ser uma realidade muito premente no dia a dia organizacional, com fortes impactos na organização, nas equipas, nos próprios líderes e também nas relações sociais e familiares de todos os envolvidos.
Como afirmou Benjamin Franklin, “quem falha na preparação, prepara-se para falhar”. Esta expressão é válida para quem está a preparar-se para ser líder e especialmente para as organizações. Mais do que um artigo para as novas lideranças, este é um artigo para os líderes mais séniores.
[1] dados CEB/Gartner
[2] Gartner Survey Reveals Leader and Manager Effectiveness Tops HR Leaders’ List of Priorities for 2023
[3]http://www.careerbuilder.com/share/aboutus/pressreleasesdetail.aspx?id=pr626&sd=3%2F28%2F2011&ed=12%2F31%2F2011
[4] Center for Creative Leadership Understanding the Leadership Challenges of First-Time Managers
[5] Managers Handbook – The 17 Skills Leaders need to Stand out, HBR, 2017)
[6] 2013, Leadership in Organizations
[7] Enabling performance in leaders during their transition into a new role, 2018
[8] https://header-corp.com/service/estudo-de-tendencias-2/
[9] Enabling performance in leaders during their transition into a new role, 2018
[10] https://www.mckinsey.com/capabilities/people-and-organizational-performance/our-insights/successfully-transitioning-to-new-leadership-roles#/