Liderança e mudança: concordar não chega

Concordamos todos. E agora? 

Chamaram-me Voz do Contra. Convenhamos que o nome cria alguma expectativa. Espera-se que interrompa, que faça a pergunta inconveniente, que estrague um consenso particularmente confortável. Mas, depois de acompanhar a Conferência Contra Tendências, onde tanto se falou de liderança, gestão de pessoas e futuro do trabalho, fiquei com uma dúvida: estará o verdadeiro desafio naquilo com que concordamos? 

É relativamente fácil concordar que a saúde mental importa. Que uma promoção exige preparação. Que adiar decisões tem consequências. Que o trabalho pode ter sentido sem ocupar a vida inteira. Que a inteligência artificial deve contribuir para uma vida melhor. 

Durante uma conferência, estas ideias encontram facilmente o seu lugar. Gostava de saber que lugar encontram na segunda-feira seguinte. 

A concordância tem uma vantagem extraordinária: por vezes, permite-nos sentir que avançámos sem termos ainda mudado nada. 

Podemos reconhecer o problema do burnout e continuar a premiar quem está sempre disponível. A pessoa que responde à noite, resolve ao fim de semana e nunca deixa cair uma entrega. Dizemos que é um exemplo. Talvez devêssemos perguntar quanto lhe custa sê-lo e o que estamos a ensinar aos restantes. 

Podemos defender que liderar exige competências próprias e entregar uma equipa ao melhor técnico, acompanhando a promoção com um sincero “vais sair-te bem”. A confiança é importante, mas o desenvolvimento de competências de liderança também agradece um lugar na agenda. 

Podemos pedir autonomia e acrescentar mais uma validação ou pedir rapidez e deixar decisões à espera de uma segurança que dificilmente chegará. Entretanto, há alguém a gerir a incerteza que ficou por resolver. 

Há ainda o propósito. Uma palavra bonita, daquelas que ficam bem em qualquer reunião de board. Algumas pessoas encontram no trabalho uma missão. Outras encontram um salário, relações, aprendizagem ou as condições para construir uma vida com significado fora dali. Uma organização precisa de saber trabalhar com essa diversidade pois seria uma curiosa forma de inclusão exigir a todos a mesma relação emocional com o emprego. 

Depois chega a inteligência artificial, com a promessa de nos poupar tempo. Aqui, confesso, fiquei especialmente atenta: o que faremos com esse tempo? Mais tarefas? Mais entregas? Uma nova meta, ajustada à eficiência entretanto conquistada? Ou haverá espaço para aprender, pensar, conversar e recuperar? 

A tecnologia abre possibilidades e a forma como as usamos revela prioridades. 

É por isso que me interessa tanto aquilo que acontece depois das grandes declarações. Quem recebe a próxima promoção. Que decisão finalmente avança. Como reage uma chefia quando alguém estabelece um limite. Quanto tempo um profissional experiente dedica a ensinar quem está a começar. É aí que as ideias ganham consequências. 

Também eu corro o risco de me tornar confortável. Uma voz com personalidade, umas provocações certeiras, uma frase que merece fotografia. Ser do contra pode transformar-se num papel muito bem desempenhado, com hora de entrada e saída.  

Por isso, deixo uma proposta: escolham uma ideia desta conferência e procurem o ponto exato em que ela entra em conflito com a vossa forma de trabalhar. Fiquem algum tempo nesse desconforto. Falem com as pessoas envolvidas. Decidam o que merece mudar. 

Quanto a mim, na próxima reunião, guardem-me um lugar. Sobretudo se estiverem todos de acordo! 

Por Voz do Contra